ORIGEM DOS TAMBORES E ATABAQUES NA CULTURA BRASILEIRA

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O Atabaque no Candomblé é um tambor usado nas festas religiosas dos negros de origem Gege, Ketu e Angola. Apenas os Malés (negros arabizados), os quais professavam a religião muçulmana, não adotavam o atabaque.

Esse instrumento de percurssão é indispensável nos rituais de Candomblé de Caboclos, onde o elemento ameríndio de forma sincretizada é bem conhecido.

Baseado no glossário luso-asiático de Delgado, a palavra atabaque originou-se das variantes populares, decorrentes de tambque , atabque e atabaque.

O formato de um atabaque é feito de um cone bem comprido em relação ao diâmetro, com cerca de vinte à vinte e cinco centímetros na parte superior e de dez a quinze centímetros na extremidade oposta e apoiada no chão. Inicialmente usavam-se quatro atabaques, assim chamados RUN, CONTRA RUN, RUMPI e LÉ, segundo a uma ordem descrescente de seu tamanho. Atualmente , com as inovações realizadas utiliza-se três atabaques, tendo sido suprimido o atabaque contra-run.

O couro para percussão era preparado com a pele dos animais sacrificados nas oferendas aos Orixás. O RUN  é o maior dos atabaques, chegando , às vezes ao comprimento de 2 metros, medindo o  LÉ,  o menor , 30 à 40 cm.

Os atabaques no candomblé são objetos sagrados e renovam anualmente esse Axé. São usados unicamente nas dependências do terreiro, não saem para a rua como os que são usados nos blocos de afoxés, estes são preparados exclusivamente para esse fim.

Os atabaques são encourados com os couros dos animais que são oferecidos aos Orixás, independente da cerimônia que é feita para consagração dos mesmos quando são comprados, o couro que veio da loja geralmente é descartado, o cilindro de madeira só depois de passar pelos rituais é que poderá ser usado no terreiro.

O som é o condutor do Axé do Orixá, é o som do couro e da madeira vibrando que trazem os Orixás, são sinfonias africanas sem partitura.

Os atabaques do candomblé só podem ser tocados pelo Alagbê (nação Ketu), Xicarangoma (nações Angola e Congo) e Runtó (nação Jeje) que é o responsável pelo RUM (o atabaque maior), e pelos ogans nos atabaques menores sob o seu comando, é o Alagbê que começa o toque e é através do seu desempenho no RUM que o Orixá vai executar sua coreografia, de caça, de guerra, sempre acompanhando o floreio do Rum. O Rum é que comanda o RUMPI e o LE.

Os atabaques são chamados de Ilubatá ou Ilú na nação Ketu, e Ngoma na nação Angola, mas todas as nações adotaram esses nomes Rum, Rumpi e Le para os atabaques, apesar de ser denominação Jeje.

Essa é a diferença entre o atabaque do candomblé e do atabaque instrumento musical comprado nas lojas com a finalidade de apresentações artísticas, que normalmente são industrializados para essa finalidade.

Segundo Edison Carneiro, o som do atabaque é o mesmo tam-tam de todos os povos primitivos do mundo. Consiste numa pele seca de animal esticada sobre a extremidade de um cilindro oco.

No tempo de Manuel Querino haviam várias espécies de tabaques como eram chamados na época: pequenos Batá, grandes Ilú e os atabaques de guerra, bàtá koto, que desempenharam grande papél nos levantes de escravos, na Bahia no começo do século XIX, o que determinou a proibição expressa de sua importação desde 1835.

[editar] Bahia
Raul Lody descreve que “os atabaques sempre foram alvo da polícia baiana e estavam terminantemente proibidos durante o Estado Novo. Para tocar os instrumentos, somente na clandestinidade, já que a Delegacia de Jogos e Costumes não costumava dar sopa. Mas um encontro nos bastidores mudaria essa história. Aproveitando uma viagem ao Rio de Janeiro, mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé do Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro, usou de sua influência e conseguiu uma audiência com o presidente Getúlio Vargas. Ela só queria cultuar a religião dos seus antepassados e Getúlio não teria como resistir ao pedido legítimo de uma criatura tão doce. O encontro de Aninha com o presidente do Brasil resultaria no Decreto 1.202, que permitiu o uso dos atabaques nos terreiros. O acontecimento é considerado um passo importante para a liberação definitiva do controle policial sobre os candomblés, o que só ocorreu em 1976, no governo de Roberto Santos. Na ocasião, a notícia foi recebida com entusiasmo pelo povo de santo da Bahia, em plena festa da Lavagem do Bonfim.”

[editar] Toque
É a percussão dos tambores ou Atabaque que varia de acordo com a nação do Candomblé. Essa percussão pode ser feita com as mãos ou com duas varetas de nome aguidavi, ou por vezes com uma mão e um aquidavi, dependendo do ritmo (toque) e do atabaque que está sendo tocado.

Dobrar os couros – é um repique lento sequencial e cadenciado que é feito para homenagear visitas ilustres que estão chegando no terreiro, praticamente é o convite para a pessoa entrar. Durante a festa, quando chegam os convidados ou sacerdotes e ogans de outras casas, interrompe-se o toque que está sendo executado para os orixás e dobra-se os couros, após a entrada dos convidados o toque é retomado normalmente. Algumas casas de candomblé não usam dobrar os couros para as visitas, mas a maioria considera isso uma honra. Dobra-se os couros também em outras ocasiões, mas sempre para homenagear.

Nas casas de candomblé bantu Angola e Congo são tocados só com as mãos, não se faz uso dos aguidavi.

A palavra também pode ser usada como toque de candomblé referindo-se as festas públicas, ou toque de orixá alguns exemplos:

Hamunha ou Avamunha : Toque que servem para saída e recolhimento de filhos e orixás.
Adarrum ou Adahun : Toque que serve para chamar orixás
Opanijé : Toque para o Orixá Obaluayê
Alujá : Toque para o Orixá Xangô [1]
Ijexá : Toque para o Orixá Oxum
Ilú ou Ylú : Toque para o Orixá Oyá
Agueré : Toque para o Orixá Oxóssi
Igbin : Toque para o Orixá Oxalá
Batá : Toque para o Orixá Oxalá
Bravun : Toque para o Orixá Oxumarê
Sató : Toque para o Orixá Nanã
Barlavento ou Barravento[2] : Toque de Angola e Congo
Congo de Ouro : Toque de Angola e Congo
Muzenza : Toque de Angola e Congo
Cabula : Toque de Angola e Congo
Na roda de capoeira também é usada como jogo/toque para diferenciar o ritmo a ser tocado no berimbau e jogado pelos participantes.

Tambores são tão ancestrais quanto o próprio homem. Os primeiros foram criados e manuseados ainda na Pré – História, com o objetivo de cultuar Deuses e como forma de agradecer a comida conseguida por meio da caça aos animais.
Milênios se passaram e centenas de representações religiosas ou espirituais foram criadas de acordo com a cultura e a cosmovisão de cada povo, de cada etnia, principalmente de acordo com os padrões sócio – econômicos de cada época. Imagens, cerimônias, mitologia, liturgias, símbolos, tambores, chocalhos e atabaques, são expressões da arte na religiosidade e na espiritualidade.
O homem pré – histórico acreditava que a pele de sua caça esticada em troncos de arvores reproduzia o choro do animal morto. E foi com esse sentimento de gratidão que passou a consagrar a morte de sua caça. Pode – se dizer que esse foi um dos princípios da manifestação religiosa do homem e a origem dos tambores. O toque do tambor revela a arte de conectar – se com a Mãe Terra e com nosso eu interior, sintonizando nosso coração ao coração dela, e de viajar ao mundo do invisível, constatando nossa ancestralidade e todos os reinos da Natureza.
Os tambores são utilizados desde as mais remotas eras da humanidade. Acredita – se que os primeiros tambores fossem troncos ocos de arvores tocados com as mãos ou galhos. Posteriormente, quando o homem aprendeu a caçar e as peles de animais passaram a ser utilizadas na fabricação de roupas e outros objetos, percebeu – se que ao esticar uma pele sobre o tronco, o som produzido era mais poderoso. Pela simplicidade de construção e execução, tipos diferentes de tambores existem em praticamente todas as civilizações conhecidas. A variedade de formatos, tamanhos e elementos decorativos dependem dos materiais encontrados em cada região e dizem muito sobre a cultura que os produziu. São típicos nos cultos afro – brasileiros; na dança, nos pontos cantados, no transe.
Em sua fase mais primitiva, a manifestação religiosa do homem tinha como base principal o contato com as divindades – o transe.
A musica e a dança sempre foram os principais feradores dessa comunicação com os Deuses. Alguns historiadores e antropólogos do século vinte destacaram a idéia de que a maneira utilizada para se chegar aos conhecimentos místicos em religiões primitivas, esteve sempre associada ao êxtase ( o transe ) provocado pelo toque do tambor. Esse instrumento seria então o responsável pela comunicação entre o homem e as divindades – seres responsáveis pelo comando da Natureza em nosso planeta.
Mesmo nas religiões mais antigas, o toque dos tambores também foi utilizado não somente para o culto às divindades, mas também como forma de manter contato com os espíritos dos mortos.
Tão comum nas religiões primitivas, segundo a Bíblia, essa pratica foi “proibida por Deus” aos filhos de Israel. Isso acabou por gerar, ao passar do séculos, que a crença dos mais antigos – o fato do tambor constituir – se em instrumento sagrado, e que seu toque fosse utilizado como forma de contato entre os homens e o mundo invisível, pertencente às divindades e aos espíritos dos ancestrais, fosse uma simples superstição.
Por que o tambor foi excluído em narrativas da Bíblia com relação às cerimônias religiosas.
Foi proibido ao povo de Israel tudo aquilo que era praticado anteriormente à revelação das leis, como o uso de bebida forte, o adultério, a utilização de escravos, entre outras praticas. O tambor e as danças eram utilizados em cerimônias festivas. Mas, segundo relatos da Bíblia, quando Davi decidiu erguer um templo para Deus. Este determinou quais instrumentos poderiam ser utilizados: címbalo ( dois meios globos de metal, percutidos um contra o outro ), alaúde ( antigo instrumento de cordas de origem oriental ) e harpa. Apesar disso, Deus não proibiu a utilização do tambor em outras cerimônias e celebrações.
Há uma outra explicação de religiosos que, de certa forma não aceitam e até discriminam a utilização de tambores em cultos religiosos, a de que o som da percussão teria a capacidade de tirar do homem a consciência e o juízo, portanto, esse instrumento deveria estar fora do culto, que necessita da “lucidez da mente” para o conhecimento de Deus e de sua vontade revelada.
Os Tambores na África
Nas sociedades africanas, a tradição oral é o método pelo qual histórias e crenças religiosas são passadas de geração em geração, transmitindo elementos de uma cultura. Uma parte integrante da tradição oral africana é, sem duvida, a dança e o canto, e o mais importante instrumento musical africano é o tambor, em diferentes tamanhos e formas e para diferentes fins.
O tambor é utilizado para enviar e receber mensagens espirituais, e é essencial na preservação da tradição oral. Na religião africana de culto aos Orixás e Ancestrais, é considerado sagrado, e seu tocador é classificado como um comunicador oral. Aquele que toca o tambor é um orador e um comunicador de mensagens sagradas.
No ritual religioso, os tambores são o inicio de tudo, sempre representaram papel muito importante na cultura africana. Existe um antigo provérbio que diz: ” Quando os tambores são tocados, eles não mentem “.
O ‘ Djembe ‘ é possivelmente o mais influente e a base de todos os outros tambores africanos, e remota há pelo menos 500 anos d.C. é um tambor sagrado utilizado em cerimônias de cura, rituais de passagem, culto aos ancestrais e ainda em danças e socialmente.
A orquestra do Candomblé é constituída por atabaques, agogôs, cabaças e chocalhos. Os atabaques são três, em tamanhos diferentes: Rum (maior), Rumpi (médio) e Lê (menor). Existe também o Agbé ou piano de cuia, o Adjá e o Xeré, este último só é usado em festas para Xangô. Os tocadores tem um chefe denominado de Alabê. Os atabaques são considerados essenciais para invocação dos Deuses.

Fontes: http://alagbesetamboreiros.blogspot.com.br/2010/04/tamboratabaques-e-sua-origem.html

http://paijoelsantos.blogspot.com.br/2011/02/atabaques-de-umbanda.html

DAS QUEDAS AOS SUCESSOS DA VIDA ESPIRITUAL

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Muita gente que trabalha com a espiritualidade não consegue compreender os obstáculos que os levam ao chão. Atribuem isso a alguma maldade que alguém fez, a castigo ou descaso do Orixá, ou até mesmo que a religião não está oferecendo o seudevido retorno pela fé e o esforço para seguir adiante no axé.
No fundo, todos nós sempre soubemos que religião não é capaz de jogar êxito, dinheiro, casas, carros e equilíbrio do céu, pois tudo que conseguimos deve ser fruto de nosso incansável trabalho.
Vejo muita gente cultuando mais o catiço do que Olorún ou o próprio Orixá. E acho interessante porque já ouvi relatos de que acertar a vida com a linha de catiço dá sempre um retorno mais rápido do que esperar o merecimento concedido por Olorún.
Se considerarmos que tudo que nos ocorre, das felicidades às desgraças são obras das nossas escolhas, deixamos de ser as vítimas e passamos a ser os réus. Precisamos fazer por merecer, e por mais fé que tenhamos, mais provações devemos passar. Não entenda que isso seja um teste apenas, quando temos que considerar que, após a superação de cada dificuldade nos tornamos mais fortes, melhores e com mais fé. Tudo aquilo que é feito e conseguido facilmente, vai embora facilmente e fica uma conta bastante alta a se pagar depois.
Pode parecer demagogia de minha parte, mas hoje eu agradeço a Olorún, meu Orixá e todos os meus guias pelas severas dificuldades que passei e passo até hoje, pois quando ouço de alguém que eu mudei para melhor, me sinto mais digna em receber o amor daqueles que me auxiliam nesta caminhada espiritual.
Não julgo quem cultua os catiços acima de todos. Eu tenho minha catiça e a amo também, mas não coloco nas mãos dela tudo que eu poderia resolver apenas com a minha mudança de postura, esforço e fé.
Motumbá!

Heide D’Oxum

VOCÊ E O ILÊ AXÉ

Tenha sempre em mente que todo trabalho que você executa dentro do terreiro se reverte em axé para sua vida. Seja uma panela que precisa ser ariada, seja na costura das vestimentas, ou até na colheita das folhas. Tudo é axé. E nunca pense que você só deve fazer algo para seu orixá, pois só ele cuida de sua vida. Todos os orixás estão presentes em nossa vida em diversos aspectos, e temos que saudar todos, cuidar e zelar por todos.

O candomblé não existe para ,que haja humilhação, fofoca e intrigas. Atitudes como essas geram proporções graves, onde muitos poderão sair magoados.

Tome consciência que você e seu orixá são a mesma coisa quando estão em comunhão. Ou seja, se você faz algo para seu orixá de coração puro, você está fazendo algo maravilhoso pra você. Porém, quando não há comunhão, as conhecidas “surras” acontecem, sejam perdas financeiras, decepções afetivas, saúde fragilizada, etc. O orixá irá buscar uma maneira de chamar sua atenção, e não adianta reclamar se isso ocorrer.

Lembre-se que sua família do axé sempre estará de braços abertos para lhe auxiliar no que for preciso.

Família é união, união é amor e amor é axé.

Motumbá

Heide D’Oxum

ROMBÃO / ROMBONA DA CASA. O QUE ISSO SIGNIFICA?

Ser rombão significa aquele que deu início, ou seja, o primeiro iniciado pelo Babalorixá/Yalorixá de uma casa. Não é um cargo, apenas a condição de ser o  primeiro filho. E por se tratar do primeiro filho legítimo do novo sacerdote, o pai ou mãe de santo desse sacerdote também contribui na feitura do iniciado. É como se esse yawô fosse 50% filho de seu sacerdote e 50% filho de seu avô de santo.

Quando um filho recebe deká e abre um Ilê Axé, o seu pai de santo (ou mãe de santo) precisa estar presente em todo processo, passando axé e fundamentos para que a casa do filho prospere, bem como contribui na iniciação do primeiro filho, e até dos subsequentes, pois cada Orixá diferente que é feito possui fundamentos diferentes para cada caso, porém, na feitura de um rombão da casa, essa contribuição do pai ou mãe do sacerdote não é apenas uma consultoria, e sim, o próprio ato de se fazer, raspando, implantando o Orixá e fazendo os fundamentos necessários.

Como qualquer iniciado, o rombão possui as mesmas responsabilidades inerentes a qualquer outro membro do Ilê Axé, entretanto, além das atividades normais, ele precisa estar ciente de que será o espelho da casa, o reflexo de conduta do sacerdote. O rombão demonstrará nas cerimônias tudo aquilo que ele recebeu como educação de axé, das rezas, cânticos, postura, vestimentas (que são mais incrementadas), os afazeres da casa e sua postura para com os demais membros da casa.

Por ser o primeiro, existem relatos que esse iniciado possui certa conexão com sua casa e com seu sacerdote, mais até em relação a qualquer outro filho que possa ser feito depois, uma vez que, qualquer coisa que ocorre com a casa, este será o primeiro a sentir, seja fisicamente ou através de alguma de suas faculdades mediúnicas, e com isso, sua aproximação com o sacerdote precisa ser firme, para que ambos contribuam com o êxito da casa. Mas, como citei, são relatos e não há literatura ou outro tipo de comprovação que ateste a veracidade desta informação.

O fato de grande importância é que este sempre será o primeiro, aquele que participou dos primeiros trabalhos e de todo processo da nova vida do sacerdote na administração do Ilê Axé. Se essa pessoa permanecer firme, junto a sua comunidade, um grande futuro estará por vir, visto que será a pessoa com mais conhecimento perante seus irmãos mais novos.

Heide D´Oxum

LINHA DE CABOCLO NO CANDOMBLÉ BRASILEIRO

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Por Tata Kitalehoxi

A origem dos Candomblés de Caboclos está no ritual de antigos negros de origem banto, que na África distante cultuavam os Nkisi – e que no Brasil viram-se forçados a encontrar um outro antepassado para substituir o Nkisi que não os acompanhou à nova terra. Neste novo e distante país, que antepassado cultuar senão o índio, o caboclo, como dizia os antigos nordestinos? Os antigos habitantes quem senão o verdadeiro e original “dono da terra”? (Santos, 1995).

O Candomblé de Caboclo se deu inicio entre os negros Bantu, sendo os espíritos indígenas paralelamente cultuados as divindades africanas (Nkisi e Hamba), sem misturar os Caboclos com Nkisi ou Hamba. Os negros tiveram a preocupação de cultuar os ancestrais desta terra, passando a cultuar paralelo ao culto que prestavam aos seus Minkisi e Mahamba.

Os caboclos, espíritos dos antigos índios que povoaram o território brasileiro, os antigos caboclos, eleitos pelos povos Bantu que aqui viveram anteriormente a chegada dos negros nagôs, como os verdadeiros ancestrais em terras nativas. São espíritos, não Deuses.

Ao Caboclo Índio são designados com “Caboclo de pena”, por causa da referência aos penachos e cocares que usam quando em transe para marcar sua origem indígena, e também existem os Caboclos de outras procedências, que são os Caboclos de couro (Boiadeiros), que teriam um dia vivido no sertão na lida do gado e que usam o chapéu característico de sua antiga ocupação.

O Candomblé Ketu não cultuava Caboclo, o que existe hoje é nessas casas de Ketu é modernidade, pois Caboclo sempre foi cultuados pelos angoleiros, por serem cultuados pelos povos Bantu ao chegarem nestas terras.

No livro Negros Bantos, Edison Carneiro relatou muitas cantigas e cerimônias assistidas no Terreiro da Goméia de João da Pedra Preta a quem, menciona em primeiro lugar nas listas do Pais de Santo consultados (Carneiro, 1937, p. 10). Outro escritor também menciona em Negroes in Brazil, os mais conhecidos Terreiros de nação Congo-Angola de Salvador, menciona o Terreiro da Goméia ao lado de terreiros prestigiados como o Bate-Folha, ate mesmo o Terreiro de Jubiabá (Pierson, 1967, p. 278)…(Vagner Gonçalves da Silva, p.156).
Tenho noticias de um mais velho descendente e pesquisador da Ndanji Goméia que a origem da Goméia é Candomblé Angola Caboclo por parte do Tatetu Severino Manoel de Abreu – Jubiabá, Pai de Santo de Joãozinho da Goméia. Com a origem do Candomblé de Caboclo que se originou pelos povos Bantu, faz desta Ndanji um importante Candomblé Angola, por conta dos princípios bantu, na precisão da elaboração de cultuar os ancestrais indígenas destas terras.
Joãozinho da Goméia foi um dos principais colaboradores de Edison Carneiro, que, em Negros Bantos, realizou uma etnografia sobre os Candomblés de ritos Angola e de Caboclos. Uma carta enviada Artur Ramos, o editor de Negros Bantos, Edison Carneiro se revelou bastante entusiasmado com o Candomblé da Goméia, ele diz:
Não se espante, por isso mesmo, com outros artigos sobre negros que vou cometer daqui por diante. Por exemplo, nos Negros Bantos pretendo dedicar capítulos aos candomblés de caboclo e as sessões de caboclo. Arranjei um ótimo campo de observação – o candomblé da Goméia (Angola). Já tenho observações notáveis que vão espantar o povo (Oliveira e Lima, 1987, p.109)…(Vagner Gonçalves da Silva, p. 156).
Sobre as polemicas contra Joãozinho da Goméia de cultuar caboclo no seu candomblé, observamos que Edison Carneiro sabia o que estava falando na carta enviada a Artur Ramos, por conta das criticas que as Sacerdotisas direcionavam ao Joãozinho da Goméia cultuar caboclo em seu candomblé, pois dentro das casas tradicionais da Bahia de nação ketu não cultuavam caboclos, não preocuparam em cultuar os ancestrais destas terras, preocupando somente com os Orixás deles no Candomblé.
Na esfera das religiões afro-brasileiras, a participação dos bantos foi fundamental, pois é da religiosidade desses povos ou sob sua influência decisiva que se formou no Brasil o Candomblé de Caboclo baiano e outras variantes regionais de culto ao antepassado indígena.
Da necessidade de cultuar o ancestral e do sentimento de que havia uma ancestralidade territorial própria do novo solo que habitavam, os bantos e seus descendentes criaram o candomblé de caboclo, que celebrava espíritos dos índios ancestrais (Santos, 1995; Prandi, Vallado e Souza, 2001).
Os Bantu estiveram no Brasil a muito mais tempo, mas existe indícios históricos que levam a crer que somente com a formação do Candomblé Angola e Congo de culto as divindades africanas (Nkisi e Hamba) teria surgido quando os Candomblés Ketu e Candomblé Djedje já estavam se organizando ou organizados.
Embora todos os negros e mestiços fossem considerados como iguais, na medida em que ocupavam na sociedade branca posição oficialmente subalterna e marginalizada, as identidades étnicas estavam preservadas nas irmandades religiosas católicas, que reuniam em igrejas e associações específicas os diferentes grupos africanos étnico-linguístico.
Pois quando nagôs e jejes reunidos nas irmandades católicas (Silveira, 2000) refizeram no Brasil suas religiões africanas de origem, os Bantu os acompanharam.
No campo religioso foi, portanto, dupla a contribuição banta originada na Bahia: o Candomblé de Caboclo e o Candomblé de Angola e Kongo, duas modalidades que se casariam num único complexo afro-índio-brasileiro, povoando, a partir da década de 1960, praticamente o Brasil todo de terreiros angola-congo-caboclo.
Na Salvador das décadas de 1920-30, o candomblé de caboclo, mais próximo de influências indígenas, contava com sacerdotes de grande prestígio: entre muitos outros, Pai Otávio Odé Taiocê, Sabina, Constância e sua irmã Silvana, que teria sido a primeira sacerdotisa do rito queto a incorporar o culto dos caboclos, uma proto-mãe da umbanda (Landes, 1967, cap. 17).
O Candomblé Ketu sempre disputava em popularidade com os Candomblés Bantu, conhecidos pelos nomes de Candomblé Angola ou Congo, os quais se espalham por todo o Brasil. Alguns destes Candomblés de raiz Bantu são: o candomblé do Bate-Folha, dos finados Pai Bernardino da Paixão e Mãe Samba Diamongo, o candomblé de Maria Neném, o candomblé de Ciriaco Tumba Junçara, o candomblé de Pai Manoel Natividade, do Caboclo Neive Branca e o candomblé da Goméia de Joãozinho da Goméia, importantíssimo divulgador da popularização do Candomblé no Rio de Janeiro, para onde se transferiu no ano 36, e que tem lugar significativo na memória dos candomblés paulistas.
Ruth Landes, antropóloga americana que, entre 1938 e 1939, guiada por Edison Carneiro, percorreu muitos Candomblés baianos, transcreve a seguinte explicação que lhe dera Sabina, mãe iniciada nos cultos caboclos por Silvana, com quem já estava rompida:
“Este templo é protegido por Jesus e Oxalá e pertence ao Bom Jesus da Lapa. É uma das casas dos espíritos caboclos, os antigos índios brasileiros, e não vem dos africanos iorubás ou do Congo. Os antigos índios da mata mandam os espíritos deles nos guiar, e alguns deles são espíritos de índios mortos há centenas de anos. Salvamos primeiro os deuses iorubás nas nossas festas porque não podemos deixá-los de lado; mas depois salvamos os caboclos porque foram os primeiros donos da terra em que vivemos. Foram os donos e portanto são agora os nossos guias. […] Talvez eu deva ir ao Rio e instalar um candomblé?” (ibid.: 193).
Mãe Sabina jogava búzios, recebia às quartas-feiras o seu caboclo para dar consultas, fazia os despachos e ebós. As cantigas e preces em sua casa eram em português misturado com palavras que hoje ouvimos nos candomblés angola.
Os sacerdotes desses terreiros de nações diferentes viviam em constante troca de visitas e favores, apesar das disputas entre eles. A então jovem Menininha do Gantois, que era admiradora e amiga de Constância, mãe de candomblé de caboclo, comenta com Ruth Landes sobre Mãe Sabina: “A senhora a chama de mãe? Ela quer é ganhar a vida, e não ajudar os outros, e nunca foi treinada em candomblé algum. […] E vive combatendo Constância, que é uma grande mãe, porque Constância a batizou na lei de caboclo. Constância e Silvana, essas sim, são grandes sacerdotisas” (ibid.: 213).
Preconceituosamente, o candomblé angola tem sido considerado um rito menor, e dele pouco se estudou (Trindade-Serra, 1978; Carneiro, 1937; Cossard-Binon, s.d.,).
O Candomblé Angola legitimou desde cedo o culto dos caboclos brasileiros, que além de se constituir como rito independente, foi também incorporado lá pelos anos 30 e 40 do século XX por casas nagôs que não as da tríade fundante, a Casa Branca, o Gantois, o Opô Afonjá (Landes, 1967).
Não se pode confundir Candomblé de Caboclo com a Umbanda, pois o Candomblé de Caboclo na época de sua formação cultuava as suas próprias Divindades – Nkisi e Mukixi, e os ancestrais desta terra. A Umbanda foi formada em 1908 onde adotou os Orixás, Caboclos, Pretos Velhos, Marujos, Baianos e Menino de Angola, todos estes espíritos.

ÉTICA, EX-MEMBROS, PROATIVIDADE E GRATIDÃO

Em todas as casas de Candomblé que existem, assim como para todas as religiões existentes, há um código de conduta (ou estatuto) que deve ser seguido à risca, a fim de promover a ordem e os deveres de quem fazem parte da comunidade religiosa.

Ferir tais códigos, por muitas vezes, significa infração leve (aquela que o sacerdote ou um irmão mais velho pode conversar para que não haja repetições – sendo muito comum em membros novos), infração grave (aquela que, além de uma séria conversa com o sacerdote e outros membros mais velhos da casa, podem gerar certos tipos de punições por parte do Orixá ou a perda da confiança que o indivíduo tinha por parte da comunidade, uma vez que o problema passa a ser público); e por fim, a infração gravíssima, que por sua vez, é aquela que pode manchar completamente o nome do Ilê Axé, ou expor ao ridículo algum integrante da comunidade, ou qualquer situação vexatória que pode até ser levada como queixa à Federação de Culto Afro. Normalmente quem comete infrações gravíssimas, já não terá mais condições de permanecer na mesma casa.

É de fundamental importância que esse código de conduta seja sempre repassado para toda comunidade do axé, pois é dele que se impõem os limites do comportamento dentro e fora do terreiro, pois quando a pessoa se denomina candomblecista, ela é o espelho da religião para os leigos. Seu comportamento passa a ser observado e julgado. Por conta desse tipo de pré-julgamento e crítica dos “não-candomblecistas”, podemos constatar a tamanha discriminação que o povo de santo sofre em todo Brasil, visto que a religião é associada  a maldade, sacrifícios de animais de forma dolorosa, sacrifícios humanos, charlatanismo, ameaças, difamações, etc. Sabemos que muitas dessas acusações são verídicas, uma vez que as pessoas podem até aumentar a história, mas pode-se considerar que existe um fundo de verdade que partiu de alguém de dentro do terreiro.

Muitas vezes, por motivos de falta de identificação com a comunidade ou por expulsão devido a quebra do código de conduta, o indivíduo deixa o Ilê Axé, buscando uma nova comunidade, e por lógica, um novo sacerdote, passando a contar e avacalhar todas as atividades da casa e do líder da casa na qual o mesmo fez parte.

O que os membros que recebem esse novo irmão deve fazer é reservar-se e observar o comportamento dessa pessoa, muito antes de emitir qualquer tipo de opinião sobre o que essa pessoa vivenciou e os reais motivos que a levou trocar de casa. Temos que ter cuidado com qualquer ser humano, pois todos nós somos dotados de bondade, maldade e interesses. Só precisamos cuidar da balança que medirá a força desses sentimentos.

Acima de tudo, é imprescindível que se avalie o tipo de diálogo que essa pessoa tem com os demais, se aprecia um bom ejó (fofoca) e se o dissemina com a mesma facilidade com que respira. Se essa pessoa faz tudo por seu Orixá, o Orixá da casa e também contribui nas obrigações e agrados aos outros Orixás dos irmãos do axé. E esse ponto é bastante importante dentro de uma casa, considerando o volume grande de atividades que são desempenhadas durante o calendário religioso. Já pensou se você trabalhar apenas para seu Orixá, e nunca participar das obrigações dos outros irmãos? Se fizer isso, poderá ser bem justo que NINGÉM ajude em sua obrigação. Imagine se você estiver recolhido e tiver que tratar todos os bichos e fizer as comidas por falta de mão de obra? Pro atividade é educação na vida civil e também na vida religiosa, pois ela gera a reciprocidade, você se sentirá bem, pois afinal dependemos de todos os Orixás existentes em cada situação de nossa vida.

Sendo assim, em nenhum momento fale mal daquilo que já lhe serviu e foi positivo pra você um dia. Se você teve um pai de santo que não se deu bem, ainda assim, tenha por ele gratidão, pois foi assim que o Orixá nasceu em sua vida, em seu corpo. Foi gasto tempo, dinheiro, fé e cuidados para tratar de você. E  se acontecerem situações de fundamentos nas quais são diferentes do seu novo Ilê Axé, não saia falando que lá era tudo feito errado. Lembre que cada casa possui sua história, seus conceitos e sua maneira de trabalhar. Nada é exato, nada é único, pois trata-se de uma cultura oral e milenar. O importante é visualizar a eficácia e o sentimento puro em que tudo foi e é feito.

Reconhecer o que foi bom, é caminhar sempre olhando para um futuro promissor. Seja grato, mesmo que não esteja mais no seu presente.

Axé!

Heide D´Oxum

ENTRE O PRECIPÍCIO E O CÉU, É SÓ UMA QUESTÃO DE FÉ. RISCOS DE QUEM ABDICA DO MATERIAL PARA A VIDA ESPIRITUAL.

Fui chamada de louca, atrevida e até de inocente por apostar alto demais no investimento da minha vida espiritual, que poderia não dar nenhum retorno, ou que o tal retorno demorasse demais. Digo investir porque quando alguém possui dinheiro, aplica-se em fundo de investimento ou na poupança a fim de que gere lucro. Vejo meus caminhos espirituais dessa maneira, onde meus lucros são muito maiores do que qualquer artifício de investimento bancário, pois aprendizado, paciência, amor ao próximo, doação, caridade e axé são valores incalculáveis.
Não foi por doença, por falta de amor ou problemas familiares. Foi por amor. Larguei emprego, fui contra o curso natural da família evangélica, zerei minha conta bancária… tudo isso para me colocar plenamente a disposição de minha iniciação. Simplesmente por amor ao Orixá que me guia.
Sinto-me como uma criança nas mãos de Oxum, onde ela me embala em suas águas.. ela sabe o que penso, onde piso, o que sinto. É tão perfeita essa conexão, que ao pensar em toda essa trajetória, meus olhos banham-se em lágrimas de emoção, de amor. Confio minha vida e minha família, que são os maiores bens que possuo nessa vida carnal, para os meus guias espirituais.
Não sinto medo. Estou ha alguns meses em resguardo devido a minha feitura, não sei como será o meu amanhã. O que sei é que tenho Orixá na minha vida, e o amanhã só pertence a Olorun, a Oxum e ao meu esforço.

 

Heide D´Oxum